quarta-feira, 9 de setembro de 2009

"O português são dois..."

Resenha:
SILVA, Rosa Virgínia Mattos e Silva. O português são dois: novas fronteiras, velhos problemas. São Paulo: Parábola Editorial, 2004.


Ensino de Língua: como e por que agir.
Danilo Pereira Santos, Naiara Ferreira e Joanni Aparecida Miranda Carvalho[1]


Aula de português:

“Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.
O português são dois; o outro, mistério.”
(Carlos Drummond de Andrade)

O livro de Rosa Virgínia Mattos e Silva, embora sendo uma compilação de textos produzidos durante a sua trajetória intelectual, é muito oportuno neste atual momento da sociedade brasileira, por tratar de um tema que os estudiosos da educação e da linguagem vêm se ocupando, qual seja, o ensino de língua portuguesa nas escolas públicas e nas sociedades indígenas, já que nos últimos tempos a discussão envolvendo uma educação laica, que atenda as necessidades dos educandos, sem estigmatizar as variantes dialetais por eles usadas, é pauta primeira nos discursos políticos educacionais. O presente texto se destina aos professores e professoras de língua portuguesa de todos os níveis escolares.

A rigor, o tema do livro desenvolve-se e se contrapõe à perspectiva de que vai mal o vernáculo no Brasil. O que vai mal, segundo Silva, é o olhar puranista e inflexível que vê o desenvolvimento das variantes dialetais em ascensão como um crime a uma língua ideal, apoteótica e de difícil alcance – senão impossível.

Profundamente sensível aos problemas que regem a educação no atual período histórico, a autora se propõe a, entre outras questões, expor seu entendimento sobre problemas como “a questão do não-preenchimento da expectativa quanto ao chamado domínio da língua”, “a questão do não-preenchimento da expectativa quanto ao conhecimento que se espera de um estudante universitário”, “inserir a questão da transmissão sistemática do português aos povos indígenas no âmbito da discussão do ensino da língua portuguesa no Brasil e no âmbito da discussão sobre alfabetização/literatização dos índios” e “trazer à discussão a questão das variedades do português que estão ainda em constituição nas últimas fronteiras da expansão do português, iniciada há cinco séculos”, só para citar alguns.

Silva apresenta o processo de ensino em nossa sociedade como sendo ainda um discurso demagógico. Estaríamos lidando com uma questão há mais de quarenta anos discutida e sem uma solução aparente, um discurso que se rege pelo direito igualitário e não discriminatório, mas que nos liames de sua concretude e em termos de ação, opta ainda por soluções paliativas e não saneadoras.

Para exemplificar o complexo problema da educação brasileira, a autora dedica parte de seus estudos à educação indígena. Retomando a nossa história, mais especificamente o período do Descobrimento, Silva traz dados preocupantes sobre as línguas indígenas, apontados anteriormente por outros estudiosos. O que salta aos olhos é o fato de que, quando os portugueses chegaram aqui ao Brasil, eram faladas cerca de 1.500 línguas indígenas, e a maior parte da população, até o século XVIII, era formada por índios, seguida dos negros. Com o decreto do Marques de Pombal , em 1757, e a expulsão dos jesuítas das terras brasileiras, não só a língua e, consequentemente, a cultura, mas toda uma população formada por índios sumiu do mapa, de modo que os nossos índios hoje não passam de um pouco mais de 211 mil indivíduos e de suas línguas só restam aproximadamente 170, sofrendo ainda o risco de desaparecerem devido à vivência/convivência com a língua portuguesa nos limites do território brasileiro.

A autora acusa a educação brasileira de ser tão etnocida, genocida e glotocida, quanto o foi durante todo o período colonial. Com raras exceções – exemplo disso é o projeto político aplicado na área do Parque Nacional do Xingu – as políticas educacionais não visam à preservação das línguas indígenas em aquisição a uma segunda língua, nesse caso, a portuguesa.

O que fazer, então, diante da diversidade linguística brasileira? Que gramática ensinar? As respostas estão formuladas nos artigos cinco e seis. Para que o ensino de língua materna seja menos opressor e mais igualitário, a primeira atitude a ser tomada é reconhecer a heterogeneidade da língua, pondo por terra o mito de unidade do português brasileiro. Reconhecendo que há diversidade de língua, se reconhecerá mais facilmente que existe também uma diversidade dialetal e que essa diversidade é de ordem diversa – econômica, política, geográfica, escolar etc. –, sendo algumas delas prestigiadas e outras não. Aos profissionais de educação cabe o desafio de reinterpretar a máxima de que “vai mal o vernáculo no Brasil”, pois “A mudança na educação tem de partir primeiro de uma mudança de mentalidades entre aqueles que trabalham no ensino e, é claro, contudo, que a efetivação de tal mudança tem de ter a infraestrutura material que só o Estado, detentor do poder e do dinheiro, pode pôr em prática”.

Diante de tais impasses, há muito ainda por se fazer, mas é preciso notar, segundo a autora, que alguma coisa já foi feita. De um modo ou de outro, as escolas já começam a aderir aos avanços conseguidos pelos estudos linguísticos no nosso país, apesar dessa aderência acontecer de modo tímido. A cobrança que se faz dos linguistas agora é que construam um instrumento pedagógico adequado para atender as novas necessidades do ensino de língua materna. Os primeiros esboços já surgiram, um da autoria de Miriam Lemle e outro, de Mário Perini. Não nos foge também a contribuição que tem feito há algum tempo o projeto NURC, estudos da fala na Norma Urbana Culta de cinco capitais brasileiras – Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Rio Grande do Sul -, analisando e registrando ocorrências na fala de seus falantes.

Considerando, pois, o tratamento que é dispensado ao ensino de língua em muitas instituições públicas de ensino, Silva escolhe um dos versos mais significativos da poética de Carlos Drummond de Andrade, “o português são dois”. De fato, que português aprendemos na escola? O que usamos no dia-a-dia, ou aquele que nos é misterioso, desconhecido? É inaceitável o uso exclusivo da gramática normativa nas práticas de ensino. O uso, e isto já está muito claro, registrado em estudos diversos de linguistas competentes, difere da norma. Ao invés de ensinar a norma, sugere Silva, é preciso ensinar as normas que regem o uso da linguagem, seja ela escrita seja ela oral.

“Uma prática escolar equilibrada terá de adequar seus instrumentos pedagógicos a sua metodologia para o ensino do português brasileiro como língua materna, e ajustá-los a uma realidade lingüística e social que não só deve como pode ser ignorada”, sugere a autora. Trabalhar com a realidade da língua é um bom começo para que se institucionalize um ensino que se quer realmente laico. “Não há como fugir!”, usando as palavras da autora. As línguas mudam e isto não significa que elas estejam em decadência ou desaparecendo. Seu desenvolvimento e destinos estão concomitantemente ligados a fatores históricos e só morrerão se morrerem seus falantes, ou estes, daquelas não sentirem mais necessidade de uso.
Assim, basta dizer, por hora, que as pessoas é que usam a língua, e usam-na muito bem de acordo com seu ciclo social, faixa etária e domínio do assunto abordado. A língua, acima de tudo, está aí para nos servir, e não nós a ela. Com muito trabalho, perseverança e pesquisa é possível sim desconstruir o mito de que português é uma língua difícil, acessível apenas a uns poucos. O português não é somente dois, mas muitos, e são esses muitos que precisam ser incorporados ao ensino. O outro, que é mistério, é o desafio dos professores e alunos deste novo século: desvendá-lo.
[1] Graduandos pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB).

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