quarta-feira, 9 de setembro de 2009



Resumo

Mas o que é mesmo “gramática”?,
por Danilo Pereira Santos[1]

O texto Mas o que é mesmo “gramática”? reflete “sobre o conceito de GRAMÁTICA e o ensino de GRAMÁTICA.” A indagação maior que permeia todo o trabalho é se os professores devem utilizar-se da norma prescritiva no ensino de Língua Portuguesa da 1ª a 5ª séries. “Gramática”, “gramatical” e “saber gramático” são alguns termos recorrentes que são revistos no intuito de entender melhor o que significam.

Trabalhar a gramática dissociada do texto, do discurso, dos processos de produção e compreensão do texto, pode e é um equívoco cometido, na maioria das vezes, pelos educadores. Aclarando o sentido de gramática em sua aplicabilidade prática e manifestação nos textos, Carlos Franchi cita dois exemplos de produções textuais produzidos por dois alunos de uma 3ª série do primeiro grau, com algumas modificações no tocante a pontuação e acentuação mais importantes.

O texto 1 sobre “ a prisão de um passarinho”, apesar de mais criativo e de estrutura complexa das orações, foi considerado pelos professores consultados como “um desastre”, por quatro motivos principais. O primeiro diz respeito à troca do ‘n’ por ‘m’ nos encontros consonantais (comseguia, temtou), do ‘u’ por ‘l’ (voutou, aupiste, fugil), do ‘i’ por ‘e’ (comsiguia, pidiu), do ‘ch’ por ‘x’ (dechou), do ‘s’ por ‘z’ (certeza), da ausência de fonemas das palavras (fico[u], discu[l]pa), do acrescimento de fonemas nas palavras (ma[i]s) e da separação de palavras que devem estar unidas (De pois) e união das que devem ser separadas (pegalo, denovo). O segundo relaciona-se ao emprego incorreto dos pronomes oblíquos átonos e, no lugar de empregar o pronome oblíquo na formação do objeto direto, usa-se o pronome do caso reto. O terceiro motivo é a deficiência no uso da concordância nominal e verbal. O quarto e último motivo é o problema de regência nominal e verbal, inserindo ou desprezando o uso coerente do advérbio.

Ao contrário do texto 1, a redação 2 sobre “a fazenda de animais”, não apresenta nenhum erro de ortografia e de gramática, exceto o uso indevido do verbo ‘ter’ em lugar do ‘haver’. O texto em análise é menos criativo, mas, segundo a declaração de um professor, é mais “límpido, em bom português.”

Até aqui, a gramática é entendida como “um conjunto de normas para bem falar e escrever, estabelecidas pelos especialistas, com base no uso da língua consagrado pelos bons escritores.” O aluno que domina a língua, é exatamente aquele que detém esse conhecimento de gramática na teoria e na prática, exercendo-o nas modalidades de linguagem falada e escrita. É essa tendência de conceito de gramática (conjunto de normas prescritivas que devem ser seguidas à risca pelos falantes da língua) que predomina na maior parte das práticas escolares da atualidade, na linguagem.

Entretanto, há uma segunda perspectiva de ensino de gramática nas práticas escolares, chamada de descritiva. Para um aluno aprender como funcionam as regras gramaticais de sua língua, antes é preciso que ele aprenda cada uma das classes de palavras e consiga diferenciá-las uma das outras. Acentuando que algumas classes, como o pronome, são divisíveis em subcategorias, por exemplo, os pronomes pessoais que se subdividem em dois grupos, os pessoais de caso reto e os pessoais do caso oblíquo, cabe ao professor esclarecer em que contextos devem ser usados e o porquê de cada uso. Mas, para que o sentido seja completo, é preciso configurar cada caso de emprego do pronome em relação aos termos a que esses se ligam. Logo, além de explicar o que é um pronome, também importa explicitar o conceito de preposição, de substantivo, de adjetivo, etc. no campo da morfologia. Tratando-se de sintaxe, a noção de função em cada termo da oração se faz extremamente necessária. Consequentemente, não basta apenas dizer que os pronomes podem exercer um papel de sujeito, de objeto direto ou de objeto indireto, dependendo do caso. Esses conceitos requerem outros, como os conceitos de sujeito, verbo transitivo e intransitivo, complemento nominal, etc. E, como bem salienta Franchi, de pouco a pouco “se vai empurrando para os alunos toda a gramática.” A gramática descritiva da língua encontra respaldo na análise das estruturas das expressões da língua, dividindo-as em unidades menores e simples, que são divididas em subclasses e em paradigmas flexionais como as conjunções e as declinações. Em seguida, as relações contraídas entre as diferentes unidades são analisadas na tentativa de entender o funcionamento dos diferentes mecanismos da língua.

Estamos configurando a gramática descritiva da língua, que “é um sistema de noções mediante os quais se descrevem os fatos de uma língua, permitindo associar a cada expressão dessa língua uma descrição estrutural e estabelecer suas regras de uso, de modo a separar o que é gramatical do que não é gramatical.” Dessa forma a gramática descritiva tende a ser mais neutra que a gramática normativa, mas o ponto de vista normativo pode infiltrar-se mascaradamente na gramática descritiva em dois pontos. O primeiro, dependendo de quem descreve determinada língua, os fatos analisados para análise da linguagem coloquial podem ser rejeitados por vulgares, destituídos de qualidade, devendo ser evitados pelo falante. Segundo, o estudioso em questão “pode reintroduzir os critérios sociais de uso”, privilegiando as expressões “consagradas” pela norma padrão.

A linguagem, tal como é concebida pelos linguistas hoje, é um patrimônio característico de toda humanidade. Não se aprende nem se faz, antes desabrocha e se desenvolve como uma flor e amadurece com o passar dos anos, desde que a criança tenha condições mínimas de acesso as suas manifestações tanto em âmbito familiar quanto social. Como salienta Maurício Silva, em introdução ao Novo acordo ortográfico da língua portuguesa (2009):

Língua não se congela. Ela é viva, pulsante. Palavras e expressões em voga numa época caem em desuso em outra. Até mesmo tempos verbais são criados e eliminados e não há sábio ou academias que possam deter a dinâmica histórica de uma língua.


O falante nativo, desde cedo, mesmo sem compreender muitas das expressões que ouve, emprega-as imediatamente como recurso próprio “de produção e interpretação de seu cérebro.” Os termos “gramática”, “regra gramatical” e “saber gramática” ganham nova configuração nessa perspectiva, uma vez que independe de processo de escolarização e de aprendizado sistemático, mas do amadurecimento das estruturas cognitivas do falante que assimila sua própria atividade lingüística e a do outrem, e as internaliza.

Assim, a “gramática corresponde ao saber linguistico que o falante de uma língua desenvolve dentro de certos limites impostos pela sua própria dotação genética humana, em condições apropriadas de natureza social e antropológica.” Nesse ponto, a concepção de linguagem e gramática torna-se mais humanística, já que atende as necessidades do homem, respeitando sua faculdade da linguagem, “como parte de sua própria capacidade e dignidades humanas.”

Isso não isenta o professor de língua de conhecer profundamente a estrutura gramatical de sua língua e de mediar o contato entre o aluno e a modalidade privilegiada da língua na sociedade em voga. Mas, como salienta Franchi, esse ensino não deve dar-se a ferro e fogo, antes é preciso “usá-la como instrumento analítico e explicativo da linguagem de seus próprios alunos.”
[1] Graduando da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB – BA)

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