No dia vinte e nove de setembro de 2009, participei de uma reunião em que foram comentados os resultados alcançados pelo Programa de Ressignificação do Sistema de Dependência com outros Tempos e Espaços de Aprendizagem, da escola em que trabalho, substituindo uma professora de Língua Portuguesa. Depois de uma manhã exaustiva de trabalho, durante o intervalo, vi um grupo de docentes reunidos ao redor de uma mesa oval discutindo a metodologia, os procedimentos, os recursos empregados e os resultados obtidos naquele primeiro semestre escolar.
Não sabendo bem do que se tratava, sentei-me atrevidamente numa das cadeiras vazias que jazia ao extremo oposto do coordenador do Projeto, que no presente momento falava. Ali ele apresentou o cronograma dos encontros entre alunos e professores e encerrou sua fala comentando sobre a culminância do evento. A professora-formadora do Programa de Ressignificação, responsável pela execução do projeto na instituição de que falo, apresentou, em números, a aprovação dos participantes, solicitando a atenção dos presentes para o fato de que, do total de alunos, apenas dois não conseguiram a aprovação por falta de presença.
Do meu lado esquerdo, uma colega de trabalho perguntou se havia uma explicação para tal ocorrência. A professora responsável esclareceu que o porquê de suas faltas estava ligado ao fato de sua mãe – da aluna – justificar que a menina, de já vinte anos de idade, não poder sair à noite, por esta ser fria. O coordenador manifestou-se, esclarecendo que, muitas vezes, por causa de um aluno que não alcança os resultados esperados, nós professores nos sentimos frustrados. Entretanto, retorquiu que era preciso dar assistência especial a esses alunos, e procurar atendê-los em suas necessidades particulares.
Estava calado e assim me mantive. Retirei-me daquela reunião com certa indignação. Algumas pessoas – pelo menos a maioria delas – ainda pensam que a educação é a Arca de Noé, que poderá salvar toda a humanidade. Não aceitam que um só se perca, se extravie ou se decida por não estudar. O problema é que mesmo que tentemos salvar o maior número de espécies, sempre sobrará mais uma a ser salva. Por quê? São tantos os fatores e condicionamentos. Podemos citar como exemplos as estruturas das instituições de ensino, que são inadequadas para a totalidade de alunos existentes, os investimentos que ainda são escassos, a metodologia que é linda escrita, mas que na prática mal se percebe, os professores que influem para as escolas, despreparados; ou ainda, considerando o outro lado da moeda, os alunos que não querem seguir um estudo regular, por acharem a escola um saco, a aprendizagem uma perda de tempo, as aulas tediosas.
Devemos considerar tudo o que for preciso considerar. Daí nos últimos anos se perguntar com frequência: qual é a função da escola? qual a função da educação? qual a função do professor? E não quero propor conceitos isolados. Mas o que tenho visto nos últimos anos é um deslocamento de responsabilidades. Esperam que a educação – e jamais culparei quem integralmente pensa assim, porque nós condicionamos a nossa sociedade a pensar deste modo – seja proporcionada única e exclusivamente pela escola. Os pais redimem-se dessa obrigação. Acreditam que suas crianças só podem ser cidadãs completas na/pela escola. Entretanto, esquecem-se que a escola é responsável pela educação instrutiva dos alunos, pela orientação do conhecimento intelectual. Bons modos quem deve ensinar são os pais, são os pais que devem manter a responsabilidade de educar seus filhos no âmbito processual da convivência com o outro. Respeito é virtude que se aprende em casa, na escola, apenas se pratica. Disciplina e limites são os nossos genitores que nos ensinam; a escola os aperfeiçoa.
Há uma semana mais ou menos, uma mãe compareceu à escola encolerizada pelas peraltices de seu filho. Durante todo o tempo em que me mantive na sala da diretora, a mãe tentava eximir-se de responsabilidades que eram só suas. Chegou ao cúmulo de perguntar a diretora por que ela não avisara ao seu irmão mais velho, que começou a estudar ali por causa das encrencas do irmão mais novo. A coordenadora justificou-se, autonomizando o menino pelos seus próprios atos, com idade suficiente para entender o que estava fazendo. Afirmo que estamos também sofrendo de uma fase de crise de autoridade. A função de educar, no sentido de disciplinar, que antes cabia aos pais, agora se tornou dos filhos. Naturalmente, como o pai e a mãe precisam trabalhar, é o filho mais velho que se responsabiliza pelas ações de seus irmãos mais novos. A quem temer, pois? Ao irmão ou aos pais?
Mesmo assim, e com todos os argumentos que eu pudesse apresentar aqui, a educação não perderia este encantamento de salvação do mundo. Por muito tempo ainda perdurará a imagem divinizada de Arca de Noé.
Para encerrar, quero elucidar que no programa Balanço Geral, assisti uma matéria sobre a educação no Brasil e a responsabilidade da escola e dos professores para com os alunos. Foi convidada para esse programa uma professora de nome Cremilda, e pelo pouco que assisti, consegui notar o equívoco do senso comum: o de achar que o professor deve exercer uma função paternalista (ou maternal). Mil vezes não. Professor não é pago para exercer funções que cabem a outros atores sociais. Já basta ter de exercer a função de psicólogo, de aconselhador, de mantenedor muitas vezes. Um professor sempre foi e sempre será um professor, na acepção mais restrita da palavra. Quem faz parte do ciclo docente anseia seriamente mudar-se de profissão, é o que mais se houve da boca dos próprios profissionais da educação.
A falta de motivação deixou de ser cartão de desculpa dos alunos e passou a ser dos professores. Arrisque-se a perguntar em sala de aula quem pretende formar-se numa carreira docente. Dificilmente alguém confirmará tal opção. É por isso que o MEC está fazendo uma campanha desesperada, convocando a todos que queiram ser professores informarem-se de como fazê-lo. Mas, quem são todos? O problema chegou a escalas tão alarmantes que, possivelmente, daqui a mais uma dezena de anos, mais próximos que longe, professor será objeto de luxo: só poderão tê-lo quem puder pagar bem, muito bem.
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