terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

MANUEL BANDEIRA E A COMOÇÃO POÉTICA EM “HIATO”

Danilo Pereira Santos*


Poucos poetas, a exemplo de Carlos Drummond de Andrade, conseguiram, no Movimento Modernista, elaborar uma poética em que as imagens poéticas do amor fossem tão supremas. Em primeiro momento, podemos nos perguntar se um poeta moderno seria capaz de tamanha faceta: produzir um poema ao estilo romântico, em que um lirismo quase exacerbado permeia-o do início ao fim. Intitulado de Hiato1, já pelo título, têm-se a anunciação de que o tema a ser tratado no poema envolve a junção e separação de dois elementos, de igual categoria, nesse caso a paixão compartilhada entre duas pessoas.

Manuel Bandeira prima pela linguagem simples. Usa em seus poemas palavras conhecidas e por vezes vilipendiadas pelo seu uso corriqueiro. Mas é nessa simplicidade aparente da elaboração de seus poemas que reside toda uma complexidade. No poema que se segue analisaremos a comoção lírica desenvolvida pela poética bandeiriana, demonstrando o quão rebuscado é a elaboração do sentimento amor, em Bandeira.

HIATO

És na minha vida como um luminoso
Poema que se lê comovidamente
Entre sorrisos e lágrimas de gozo...

A cada imagem, outra alma, outro ente
Parece entrar em nós e manso enlaçar
A velha alma arruinada e doente.

- Um poema luminoso como o mar,
Aberto em sorrisos de espuma, onde as velas
Fogem como as garças longínquas no ar...

“Hiato” , numa linguagem estritamente gramatical, elucida o encontro de duas vogais que pertencem a sílabas distintas2. Um encontro que se desfaz na divisão. O primeiro paradoxo surge. Por que invocar elementos que se juntam e se separam mutuamente? Bandeira não deixa de trabalhar com temas específicos do romantismo, o que não significa dizer que o poeta seja romântico. A ruptura do amor e, consequentemente, a necessidade e impossibilidade de realizá-lo, insurge no canto do eu lírico. A canção está destinada ao outro(a), na pessoa do “tu”, sinalizada no verso de abertura. O outro(a) é responsável pela existência da canção. A canção existe por intermédio do outro(a), e sem o outro(a) a canção se invalida. “Hiato” representa o desejo do encontro, da plena realização de um amor, que é incompleto sozinho e que necessita ser inteiro.

Mas em nenhum momento o poeta fala em amor, em sentimento, em desilusão... ou fala? O conteúdo de tal interpretação está no viés. Ao falar de um poema, da leitura comovida de um poema, das imagens elaboradas a partir da leitura de um poema, é que o poeta constrói um discurso sentimental.

“A poesia, reprimida, enxotada, avulsa de qualquer contexto, fecha-se em um autismo altivo; e só pensa em si, e fala dos seus códigos mais secretos e expõe a nu o esqueleto a que a reduziram; enlouquecida, faz Narciso o último deus.”3

A construção do amor identifica-se com o entendimento da leitura de um poema que comove. “És na minha vida como um luminoso/ poema que se lê comovidamente/ entres sorrisos e lágrimas de gozo”. A presença de elementos contrários se desenvolve em consonância a uma evocação profunda e idealista do eu lírico; mas, ao invés da evocação dar um tom melancólico ao poema, exalta a grandeza do próprio tema. Sorrir e chorar são caminhos que levam a um mesmo fim, o gozo. O poema é luminoso e comove. A exaltação do sentimento se desenrola sobre o próprio sentimento. Ora, quem pode nos comover senão o próprio sentimento? E mais que o amor?

Há alguém que declara este conteúdo lírico a alguém que por certo é pensado, só pensado. O momento da emoção dá-se no ato da leitura, por um mecanismo de fruição. Ao ler um poema que o comove, o eu lírico sorri e chora pensando no ser amado. Logo, o poema translada-se do campo do significante e avoluma-se no campo do significado, encontrando um ponto de referência extra-poético. Sentimentos e verdades se imbricam.
É o que aparece escrito nestes versos de Gregório de Matos (1968):

“Não sei, quando caís precipitada,
Às flores que regais tão parecida,
Se sois neve por rosas derretida,
Ou se rosa por neve desfolhada.”4

O processo de translação se dá pelo processo comparativo, presente na palavra como, em que os elementos tomados para evocar o referente, sejam objeto ou pessoa, tornam-se o próprio referente. Assim é que já não se trata da leitura do poema, mas das imagens que esse poema traz à tona. A leitura está aí como mecanismo auxiliar, para se chegar ao referente.

E isto é tão forte no poema de Bandeira, que o poeta na segunda estrofe recorre à imagem poética, que é uma projeção possível quando lemos. Tal imagem é criada por nós (será?), no ato da leitura. Mas, como já dizia Fernando Pessoa, todo sentimento está ligado a uma paisagem exterior a nós. Não criamos as imagens, porque elas já existem, apenas recorremos a elas para definir do modo que desejamos os nossos sentimentos.

“A cada imagem, outra alma, outro ente
Parece entrar em nós e manso enlaçar
A velha alma arruinada e doente.”

A sensação que o poeta tem é que cada imagem é um ente independente, capaz de pensar per si só, onipotentes a ponto de dominar o ser que sente, mesmo que este sentimento seja vilipendiado. O uso corrente de adjetivos, como se verifica nestes versos, ajuda a reforçar a ideia de que o referencial primeiro do poeta é o ser amado e não a leitura de um poema comovidamente lírico. Os adjetivos “luminoso”, “gozo”, “velha”, “arruinada” e “doente”, são sensações exteriorizadas do eu lírico, ainda segundo Pessoa. E cada um desses adjetivos divisa e determina o grau, a tonalidade e a intensidade do sentimento aqui presente, que num extremo é positivo e noutro extremo, negativo. Entretanto, os elementos estão dispostos harmoniosamente, corroborando para a expressividade do que o poeta pretende dizer.

“No nível profundo, a análise de um poema é frequentemente a
pesquisa de suas tensões, isto é, dos elementos ou significado con- traditórios que se opõem, e poderiam até desorganizar o discurso;
mas na verdade criam as condições para organizá-lo, por meio de uma unificação dialética.”5

A última estrofe enfeixa a ideia inicial, e lembra os versos da epopéia camoniana. A referência ao mar introduz o canal de fuga, mas também elabora um espaço de grandiosidade do sentimento do eu lírico. As garças representam a dispersão desse sentimento no horizonte, de grande que é. Novamente, o poeta utiliza o mecanismo de comparação para transladar o significante ao campo do significado. Entretanto, como o referente não está explícito, há margens para muitas interpretações. A que cabe a essa análise é que o poeta faz referência ao mar para, indiretamente, fazer menção ao seu próprio coração, que é grande em sentimentos e luminoso por tão pura expressão.

O(A) outro(a) já não está fora do poeta, mas aberto em sorrisos de espuma, que são os pensamentos pueris do eu lírico. Retomamos os versos “Parece entrar em nós e manso enlaçar/ a velha alma arruinada e doente”. Tal acontece: o poeta está tomado pelo outro, está enlaçado pelo outro, e sua alma agora é “Um poema luminoso como o mar”. Daí que essas espumas significam o esvaziar-se do eu lírico em sua expressividade poética. A alma do poeta está repleta de sentimentalidade, que se perde nas “velas” que “fogem como as garças longínquas no ar”. O que foge, foge dentro do eu lírico e perde-se dentro de sua alma, como as velas que somem no imerso horizonte azul do mar, e repercute em ecos que morrem no interior do eu lírico.

Assim é que o poema de Bandeira trata um tema romântico, mas de um vigor imarcescível. É certo que sua canção varia entre nove e onze sílabas poéticas, o que somente deixa transparecer a voluptuosidade dos sentimentos do poeta.







Referências:

BANDEIRA, Manuel. “Hiato”. In: Antologia Poética. 11ª ed. Rio de Janeiro. José Olympio Editora, 1980. p. 34.

BOSI, Alfredo. “Poesia-resistência”. O ser e o tempo da poesia. 7ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 163-227.

CANDIDO, Antonio. “Uma aldeia falsa”. In:_______. Na sala de aula; Caderno de análise literária. 4ª ed. São Paulo: Ática, 1993. (Série Fundamentos) p. 20-37.

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