Danilo Pereira Santos
Resumo: De posse de informações que configuram a literatura africana ainda como por se construir, mas que já em seu desenvolvimento traz consigo um forte apelo ao nacionalismo, é que este artigo versa sobre a análise comparativa da poesia africana de Luandino Vieira e Manuel Rui e da poesia de Olavo Bilac, poeta parnasianista, tendo por referência o crítico literário Ferreira (1987).
Palavras chaves: Identidade nacional. África. Análise comparativa.
Análise comparativa
“As literaturas africanas são o inverso da literatura colonial. O univer- so africano perspectivado de dentro, consequentemente saneado da vi- são folclorista e exótica. No espaço material e linguístico do texto o negro é privilegiado e revestido de um solidário tratamento literário – embora não sejam excluídas as personagens européias (de sinal nega- tivo ou positivo). É o africano que normalmente preenche os apelos da enunciação e é ele quase exclusivamente, enquanto personagem fic- cional ou poético, o sujeito do enunciado. Os cuidados e os esmeros do sujeito enunciador são os de organicamente moldar o enunciado com os ingredientes significativos e representativos da especificidade africana. Se colocados lado a lado, dois textos, um de literatura colonial e outro de literatura africana, é como se procedêssemos a uma justaposição de brusco contraste” (Ferreira, 1987, p: 13-14).
Por vezes, a literatura africana foi concebida como uma literatura profundamente colonialista, já que conviveu anos sob o regime colonial europeu e americano. Vista deste modo, toda a produção africana não poderia constituir-se como literária, porque não possuiria valor estético. Mas, como afirma Ferreira (1987), há duas literaturas africanas distintas: uma contaminada pela ideologia colonialista, vista de cima para baixo, em que o homem branco, europeu, é o portador da palavra; e uma que é propriamente africana, em que aparece a voz do negro, em que o negro torna-se o autor de suas histórias, ideologias, sentimentos e receios. Esta última, vista de baixo para cima, é que nos propomos a analisar neste trabalho, não só pelas vozes que aí aparecem, mas, e, principalmente, pelo seu inquestionável valor estético.
Difícil atribuir rótulos a literatura africana. Todas as terminações que nos servem para especificar os movimentos literários de ocorrência ocidental são incabíveis aos de ocorrência africana. Uma literatura jovem ainda, a escrita africana merece uma observação mais atenta de suas características. Isto não quer dizer que não haja traços fundamentais e essenciais que definam tal escrita. E um dos traços que permeiam toda a produção literária africana é a construção contestaria de uma identidade nacional. Recorrente em todas as culturas, a construção de uma identidade nacional africana também é ufanista. Entretanto, o ufanismo africano não requer méritos outros que não à valorização do que é seu: cultura, povos e Mama África. Daí o caráter contestatório da construção de uma identidade nacional, que nada mais é que a re-afirmação dos próprios valores em detrimento da ideologia do homem branco.
A pergunta frequente a que estaria submetida à(s) voz(es) literária(s) africana(s) se configura(m) como um questionamento da própria terra, da identificação do homem negro com o lugar em que vive. É o que expressa à primeira estrofe do poema Canção para Luanda, de Luandino Vieira:
“A pergunta no ar
no mar
na boca de todos nós:
– Luanda onde está?
Silêncio nas ruas
Silêncio nas bocas
Silêncio nos olhos”
O silêncio que por tanto tempo acompanhou o africano, que de ameaça constante viu-se obrigado a rebelar-se e fugir da terra-mãe. A compreensão do que é o africano pelo próprio africano ainda impõe muitas dúvidas, inclusive da fugacidade das coisas e do que permanece, que é também fugaz.
“Tudo é fugaz
entre o desenho do teu pé na areia
e a onda que desfaz
a marca”
(Manuel Rui, Mar novo)
Pensar no homem africano é pensá-lo em torno de um marco social. O mar que representava a liberdade era o mesmo mar que trazia a opressão. Mas o mar agora não traz o inimigo, não é trajeto de sofrimento. O que o mar anuncia à terra que toca é o sentimento de liberdade. A terra denuncia calma e tranquilidade. O homem africano começa a entender quem ele é em relação à própria terra.
“É nova esta areia
este marulhar de fogo nos ouvidos
quase notícia do rebentamento maior
sobre o inimigo.
É novo este calor como se o sol
fosse um ananás coletivo suculento
rasgado pelos dedos da madrugada mais quente
e mais suave.”
(id., ibidem.)
Em Pássaro Cativo, Olavo Bilac trata da escravidão usando a imagem do pássaro preso à gaiola. Mais que poético, este poema é uma denúncia social sobre o que com frequência o homem faz do seu semelhante. Assim também, o fez o europeu ao africano: retirou-os de seu ambiente natural, aprisionou-o e, em compensação, tentou convencê-lo com falsas regalias. Seguem escritos alguns versos em que o pássaro, usado aqui como uma figura metafórica, lamenta seu cárcere:
“Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:
“Não quero o teu alpiste !
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores,
Sem precisar de ti !
Não quero a tua esplêndida gaiola !
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi ...
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas ...
Solta-me ao vento e ao sol !
Com que direito à escravidão me obrigas ?
Quero saudar as pompas do arrebol !
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas !
Por que me prendes ? Solta-me covarde !
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade ...”
Caso parecido não aconteceu com o africano? Impedidos de falarem, expressaram-se em terras alheias e nas suas próprias através de lamentos, que foram ignorados. Tantos anos servindo acabou por apagar traços importantes de sua identidade. Tratados em tempo integral como inferiores, nascidos para servir, prontos para o trabalho subalterno, o homem africano já não conseguia traçar horizontes que o definisse. Homens ligados a terra, e tendo sido privados de um contato mais íntimo com a terra em que vivia, o africano era definido por padrões estrangeiros.
Obrigados a servirem na terra em que nasceram, vilipendiados em sua pátria-mãe, o homem africano tenta agora se encontrar como cidadão, como humano. Por isso, vemos com frequência a literatura africana emergir da contação de histórias, passadas de geração a geração. Para construir uma identidade nacional é preciso primeiro resgatar a que se perdeu. E é isto que de algum modo retrata O avô, de Olavo Bilac:
“Hoje, a custo somente move os passos...
Tem os cabelos brancos; não tem dentes...
Porém remoça, quando tem nos braços
Os dois netos queridos e inocentes.
Conta-lhes os seus anos de alegria,
Os dias de perigos e de glórias,
As bandeiras voando, a artilharia
Retumbando, e as batalhas, e as vitórias...
E fica alegre quando vê que os netos,
Ouvindo-o, e vendo-o, e lhe invejando a sorte,
Batem palmas, extáticos, e inquietos,
Amando a Pátria sem temer a morte!”
Não é difícil entender porque os autores africanos insistem tanto em cantar a terra, o homem e seus próprios valores. É possível que o indevido entendimento da literatura africana esteja, em parte, associada a uma visão carregadamente europeizada. E, por consequência, o achismo popular atribua à África o valor de um país que não produz uma cultura escrita e organizada. Tantos são os equívocos que, levando em consideração todas as leituras já efetuadas sobre a literatura africana, a melhor das leituras, por certo, partirá do próprio homem africano, referenciado em seus escritores, que aos poucos vêm mostrando o valor da cultura e da escrita que lhe são próprias.
Branca a buganvília explode
no dia do muro em frente
à volta a vida berra crente
e o negro sangue estanca
vermelha a buganvília
rompe o muro da frente
(Luandino Vieira, Buganvília)
Assim, para o homem africano, a Mama África é tudo que se pode ver e sentir, desde a mais insignificante folha seca à grandeza de suas dunas. A construção da identidade africana, não muito diferente da nossa, se dá na observação do homem com a sua terra-mãe, que é a um só tempo a sua luta e a sua glória.
Referências:
FERREIRA, Manuel. Literaturas Africanas de expressão portuguesa. São Paulo: Ed. Ática S. A., 1987.
BILAC, Olavo. A pátria. Disponível em: recantodasletras.uol.com.br. Acesso em: 08 de dez. 2002.
BILAC, Olavo. O avô. Disponível em: www.scribd.com/.../Literatura-Olavo-Bilac-Poesias-Infantis. Acesso em: 08 de dez. 2002.
RUI, Manuel. Mar novo. Disponível em: betogomes.sites.uol.com.br/ManuelRui.htm. Acesso em: 08 de dez. 2002.
VIEIRA, Luandino. Canção para Luanda. Disponível em: www.antoniomiranda. com.br/poesia.../luandino_vieira.html. Acesso em: 08 de dez. 2002.
VIEIRA, Luandino. Buganvília. Disponível em: www.antoniomiranda.com.br/poesia.../
luandino_vieira.html. Acesso em: 08 de dez. 2002.
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